Unicórnios são apenas cavalos mágicos?

Transformando unicórnios em dragões cromáticos | Variantes de unicórnio para Cairn 2e


Quando o assunto é fantasia medieval algumas figuras icônicas logo vêm à mente, entre elas os dragões e unicórnios se destacam como símbolos do gênero e já se espalharam por todo canto que você olhe, desde livros, séries, filmes, jogos e muitas outras mídias, mas tem algo de diferente em como esses dois são representados, principalmente nos RPGs.

Dragões cuspidores de fogo são clássicos, seres gigantes e escamosos com grandes asas, chifres adornando suas cabeças e capazes de incendiar cidades inteiras com um sopro. Em D&D essas criaturas ganharam variantes marcantes, os dragões metálicos e cromáticos expandem a ideia desses seres, com seus sopros elementais e escamas coloridas ou metálicas, nada mais justo, afinal essas feras fazem parte do nome do jogo e por sua grande influência acabaram se espalhando ainda mais no imaginário de quem joga RPG, chegando até mesmo a aparecer em diferentes sistemas e mídias.

Além das várias formas físicas, os dragões também aparecem em diferentes papéis, alguns são vilões impiedosos, outros ajudam o grupo de aventureiros como sábios antigos e alguns simplesmente querem ser deixados em paz enquanto acumulam suas montanhas de tesouros.

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Até mesmo em outras mídias os dragões são representados com formas e habilidades únicas.

Em contrapartida, os unicórnios seguem um modelo bem tradicional em suas representações, um corcel de pelagem branca, postura elegante quase angelical e com um chifre espiralado em sua testa, geralmente são seres que representam pureza e inocência, habitando bosques encantados repletos de animais e fadas. Claro que isso não é uma regra, existem representações de unicórnios que não seguem todas essas características, mas poucas delas se distanciam da figura de um cavalo mágico e puro.

Prime Video: My Little Pony: Friendship is Magic Season 5
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Você teria coragem de cortar fora o chifre disso aqui?

Ok, mas unicórnios não são essencialmente cavalos mágicos?

Não, eles eram mais que isso, pra começo de conversa, alguns unicórnios se pareciam com quimeras que misturavam características de cavalos, bodes, porcos, veados e até mesmo elefantes, unicórnios estavam mais próximos de monstros do que de cavalinhos saltitantes que vomitam arco-íris.

Os registros mais antigos nos levam até a Grécia Antiga, onde durante a tradução dos antigos testamentos da Bíblia do Hebreu para o Grego, o boi selvagem mencionado no Livro de Jó foi chamado de “Monokeros“ ou criatura com um único chifre, mais tarde, quando esses textos foram traduzidos para o Latim, o Monokeros se tornou Unicornis e com o passar do tempo a presença do unicórnio nos livros sagrados era como uma prova de sua existência. Além da presença da criatura na Bíblia, a popularidade e legitimidade do mito aumentaram graças aos dentes de narvais que eram comercializados pela Europa na Idade Média.

A Dama e o Unicórnio | Ambiente de Leitura Carlos Romero
A Dama e o Unicórnio | Ambiente de Leitura Carlos Romero

Fragmento de uma das tapeçarias “A Dama e o Unicórnio”, feitas por volta de 1500.

Durante o período medieval eles eram vistos como feras mágicas e poderosas, que matavam com o chifre em suas testas, sendo criaturas quase impossíveis de serem caçadas, mas que se tornavam dóceis ao verem uma mulher virgem, ao ponto de deitarem a cabeça no colo da dama. Mais tarde, por volta de 1500, a imagem do unicórnio já era mais próxima da que conhecemos hoje, um cavalo branco de postura elegante e que simbolizava a pureza.

Mas beleza, depois de falar sobre tudo isso, você deve estar se perguntando — Onde você quer chegar com esse papo, Kakapo? — e bom, a resposta é que essa diferença na representação de dragões e unicórnios me motivou a criar algo, então, vamos transformar unicórnios em dragões cromáticos!!!

Mas calma aí!! Antes que você tire conclusões precipitadas acho bom explicar exatamente o que vamos fazer aqui, a ideia é tratar os unicórnios como um grupo de criaturas com comportamentos, hábitos, formas e habilidades únicas entre si, não apenas o mesmo bicho com um elemento diferente e pintados com tinta colorida, ok?

O sistema base que vamos usar é o Cairn 2e, por ser um sistema OSR com fichas de criaturas simples e compactas, sendo fáceis de adaptar para outros “Into-The-Odd-likes“ sem muitos problemas.

Remodelando o unicórnio comum

Pra começar vamos dar uma nova cara para o unicórnio básico, sem mudar seus atributos, apenas mudanças físicas e narrativas o suficiente para que ele tenha algo de novo, ele será uma espécie encontrada em áreas com árvores altas e muitos arbustos. O visual será fortemente inspirado na descrição feita por Ctésias de Cnido.

“Na Índia, existem jumentos selvagens tão grandes quanto cavalos, ou até maiores. Seu corpo é branco, sua cabeça vermelho-escura, seus olhos azulados e eles têm um chifre na testa com cerca de um côvado de comprimento. A parte inferior do chifre, a cerca de dois palmos de distância da testa, é completamente branca, o meio é preto, a parte superior, que termina em uma ponta, é de um vermelho muito flamejante.” — Ctésias de Cnido, Indica (resumo de Photius, Myriobiblon 72) (trad. Freese) (historiador grego do século IV a.C.)

Para complementar essa descrição, vamos pegar alguns elementos do Quaga, um tipo de zebra já extinta, com listras apenas na parte da frente do corpo.

Além do visual, precisamos que nosso unicórnio tenha algo mágico, para isso vamos usar o clássico chifre mágico que cura doenças e ferimentos, mas além dele também podemos pensar em algo a mais que torne esse animal um ser tão cobiçado.

Hildegarda de Bingen foi uma mística, compositora, escritora, curandeira e muitas outras coisas, que viveu entre os século XI e XII, entre suas obras ela cita os benefícios medicinais de diferentes partes do unicórnio, entre eles os cascos, que supostamente teriam a capacidade de evaporar o veneno de alimentos, caso fosse colocado embaixo de um prato de comida.


Unicórnio do Bosque

6 PV, 14 FOR, 12 DES, 14 VON, chifre (d10, ignora armadura)
• Cavalos mágicos de rosto vermelho e um único chifre tricolor na testa. São capazes de perceber as más intenções direcionadas a eles.
• Se seus cascos forem colocados embaixo de um prato com comida, eles fervem e evaporam o veneno dos alimentos contaminados.
Graça Genuína: Com um toque gentil de seu chifre, é capaz de curar 2d4 PVs de alguém ferido.


Um corredor indomável

Nossa primeira variante será um unicórnio arisco, que evita ao máximo o contato com pessoas, mas não se intimida quando precisa lutar, pra isso ele precisa ser um corredor veloz e alerta.

Um animal que podemos usar como base é a gazela, um bicho veloz e com sentidos apurados para evitar ameaças, além disso vamos pegar características do Ocapi, um parente das girafas, que possui orelhas grandes e flexíveis que ajudam a perceber perigos e possuem hábitos solitários.

Para trazer um pouco de estranheza, vamos pegar emprestado traços da macrauquênia, um animal extinto que possuía uma tromba parecida com a das antas, essa tromba vai ajudar nosso unicórnio a se alimentar da vegetação das planícies onde vive.

Por último, precisamos de algum poder mágico que converse com suas capacidade de corrida, talvez seu corpo consiga criar e manipular eletricidade através de sua corrida, ele pode até carregar sua pelagem com eletricidade para parecer maior quando estiver ameaçado.


Unicórnio da Planície

6 PV, 12 FOR, 18 DES, 14 VON, coice (d8), chifre (d10, ignora armadura)
• Seres mágicos parecidos com veados, possuem um chifre no meio da testa e uma pequena tromba que os ajuda a se alimentar da vegetação baixa e seca.
• Arisco e ágil, foge ao menor sinal de perigo, mas luta ferozmente se for encurralado, arrepiando seus pelos com eletricidade.
Investida Trovão: Transforma-se em um raio que dispara em linha reta, alvos no caminho devem fazer um teste de DES ou recebem 1d8 de dano elétrico e ficam paralisados.


Unicórnio entre humanos

Para a segunda variante, vamos nos inspirar em um dos papéis assumidos por dragões, o de sábio ancião, para isso nosso “Unisábio“ precisa ser uma criatura com alta capacidade de socialização, capaz de se introduzir na sociedade, mas que ainda possua seus mistérios e nada melhor para isso do que a capacidade de se disfarçar com a multidão.

Um unicórnio que muda de forma pode render situações interessantes em mesa, talvez o grupo descubra que o ancião da vila que os acolheu é na verdade o unicórnio que eles foram encarregados de caçar, ou talvez o próprio unicórnio disfarçado esteja causando problemas na vila sem que ninguém perceba.

Como estamos fazendo um sábio, a formal “animal” também deve trazer essa ideia e por isso nada de cavalos aqui, nosso unicórnio será um bode, daqueles com barbicha e cara de vovôzinho, essa forma transmite a mensagem que queremos, mas também o ajuda a se aproximar dos animais do pasto até finalmente se infiltrar entre os aldeões. Quando assume uma forma humanoide ele mantém uma mecha de cabelo púrpura e seu chifre se torna um pingente.

Para fechar, vamos dar habilidades mágicas para ele, que tal a capacidade de manipular e se fortalecer pelas emoções? Talvez esse seja o motivo pelo qual ele se aproxima das pessoas.


Unicórnio Psiônico

5 PV, 10 FOR, 12 DES, 18 VON, chifre (d10, ignora armadura)
• Assumem forma humanoide para viverem disfarçados em vilarejos, influenciando e se nutrindo das emoções dos habitantes, geralmente são tratados como figuras sábias ou queridas.
• Quando se transforma, ele mantém uma mecha de cabelo púrpura e seu chifre vira um pingente.
• Imune a magias que alteram a mente.
Onda Emocional: Alvos próximos devem fazer um teste de VON ou terão suas emoções manipuladas, recebendo 1d4 de dano em VON.


Encontro em alto mar

Pra fazer jus aos narvais que tiveram um papel muito significativo nesse mito, precisamos de um unicórnio aquático, eu poderia só pegar um narval, dar um poder mágico e dizer que é um unicórnio aquático? Poderia, mas não vamos fazer isso, vamos criar algo mais interessante.

O domínio desse ser será o mar, um lugar onde nenhum outro unicórnio é capaz de habitar e que guarda mistérios desconhecidos. Por viver em um lugar tão distante, esse unicórnio possui um comportamento territorial, confrontando aqueles que invadem seu território, que pode ser um colorido recife de corais, ou regiões profundas que guardam grandes poderes mágicos.

Entre as lendas de cavalos aquáticos já temos o kelpie e o hipocampo, poderíamos nos inspirar em cavalos-marinhos, mas acredito que eles seriam mais interessantes em algo relacionado a dragões — quem sabe isso não vire outro texto — mas para diferenciar nosso unicórnio, vamos nos basear nas linhagens evolutivas dos cetáceos e sirênios, grupos que incluem as baleias, golfinhos e os peixes-boi.

Para a aparência desse unicórnio vamos com algo que traga força, elegância e um toque de fantasia, as manchas contrastantes das orcas podem servir como um indicativo de sua agressividade, enquanto as listras em suas costas podem o ajudar a se camuflar, emulando os reflexos da superfície aquática, ao mesmo tempo que o fazem parecer místico.


Unicórnio Marítimo

6 PV, 12 FOR, 14 DES, 16 VON, chifre (d10, ignora armadura)
• Habitam grandes recifes de corais ou regiões profundas com grande magia, são vistos raramente, quando sobem à superfície para respirar ou quando perseguem aqueles que invadem seu habitat.
• Ficam fisicamente indefesos fora d'água, recorrendo somente a sua magia.
Correnteza: É capaz de criar e controlar fortes correntes de água, alvos próximos devem fazer um teste de DES ou recebem 2d6 de dano.
Dano Crítico: A pressão da água aumenta ao redor do alvo, que recebe 1d4 de dano em FOR.


Titã furioso

Por fim, precisamos de um titã blindado, uma criatura robusta que consiga se manter de pé por bastante tempo, desafiando os limites de qualquer um que o enfrente. Uma descrição da Grécia Antiga sobre criaturas de um único chifre vivendo na região da Índia traz elementos que se encaixam no que queremos.

"[...] um animal muito feroz chamado monoceros, que tem a cabeça de um veado, os pés de um elefante e a cauda de um javali, enquanto o resto do corpo é como o de um cavalo; ele emite um mugido profundo e tem um único chifre preto, que se projeta do meio de sua testa, com dois côvados de comprimento." — Plínio, o Velho, História Natural (Livro VIII, capítulo 31)

Além das características da descrição de Plínio, vamos pegar inspiração no rinoceronte lanoso, um animal extinto que teve seus fósseis confundidos com partes do esqueleto de um unicórnio, ele era um animal robusto e resistente que vivia em regiões frias.

Seguindo a linha do rinoceronte lanoso, nosso unicórnio titã viverá em regiões gélidas cobertas de neve e gelo, um tipo de local inóspito e desafiador para aventureiros, mas que para ele não são um incômodo graças a suas habilidades mágicas glaciais. Em casos de fúria extrema, o unicórnio reveste seu chifre com uma grossa camada de gelo mágico para ferir seus oponentes, além disso, ele também é capaz de manifestar grandes avalanches para soterrar os inimigos.


Unicórnio Glacial

10 PV, 1 armadura, 18 FOR, 12 DES, 10 VON, , chifre (d10, ignora armadura)
• A maior espécie de unicórnio, tem comportamento agressivo, vive em áreas congeladas e possui um corpo robusto com patas fortes e pesadas.
Avalanche: Invoca uma poderosa avalanche, alvos próximos devem fazer um teste de DES ou serão soterrados (1d12 de dano em FOR).
Dano Crítico: Uma grossa camada de gelo envolve seu chifre (1d4 de dano adicional de gelo).


E você, tem alguma outra visão sobre unicórnios em RPGs? Conta aí nos comentários suas opiniões sobre variantes dessas criaturas mágicas e quais outras formas você imagina para esses seres.

Todas as artes dos unicórnios em melhor qualidade você encontra gratuitamente na minha página do Itch.io.


Inspirações e referências

(publicado em 29/09/2023)

(publicado em 14/03/2025)


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